segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Raio X da saúde pública de Campos dos Goytacazes: quanto se gasta, quem recebe e o que se entrega

Campos dos Goytacazes aplicou R$ 1,23 bilhão em saúde pública em 2025. Reuni, num estudo técnico, os dados oficiais da Secretaria Municipal de Saúde, do Tesouro Nacional, dos portais da transparência do Município e da União e do DATASUS. O objetivo é apresentar o que esses dados mostram e o que eles não permitem saber. O período analisado é o exercício de 2025, com séries históricas desde 2013 e dados parciais de 2026. O estudo completo está ao final da postagem.

Em 1 minuto
R$ 1,23 bi
gastos com saúde em 2025, ou R$ 2.371 por habitante
46,86%
da receita de impostos aplicada em saúde; o mínimo legal é 15%
50%
do gasto destinado à força de trabalho (servidores e contratados)
R$ 67,96 mi
em emendas parlamentares; R$ 29,5 mi sem destino final identificável nos dados públicos
40.353
internações SUS nos hospitais do Município em 2025
3 de 6
metas selecionadas da Programação Anual de Saúde não atingidas em 2025

1. Quanto o Município aplica

A Constituição exige que o Município aplique em saúde pelo menos 15% da receita de impostos. Campos aplicou 46,86% em 2025 e manteve percentuais acima de 27% em todos os anos desde 2013.

Mínimo exigido pela Constituição
15%
Aplicado por Campos em 2025
46,86%

Fonte: Relatório Anual de Gestão 2025 (SIOPS). Escala das barras de 0% a 50%.

Dois cuidados na leitura. Primeiro, entre 2024 e 2025 a despesa total com saúde ficou praticamente estável (−0,5%, de R$ 1.237,3 milhões para R$ 1.231,5 milhões); o percentual subiu porque mais despesas passaram a ser pagas com recursos de impostos. Segundo, o volume aplicado mede o esforço financeiro, não a eficiência: saber se o dinheiro é bem gasto exige olhar para o que ele entrega, tema das seções 5 e 6.

2. De onde vem o dinheiro

O Município custeia 63,2% da despesa. Os royalties do petróleo cobrem quase um quinto e pagam a complementação aos hospitais conveniados, o que vincula parte do financiamento da saúde ao preço do petróleo e ao julgamento da ação sobre a redistribuição dos royalties no Supremo Tribunal Federal (ADI 4917).

39,4%
31,3%
18,7%
Impostos municipais (39,4%)SUS — União (31,3%)Royalties (18,7%)SUS — Estado (5,3%)Outras fontes (5,2%)

Fonte: Relatório Anual de Gestão 2025 (SIOPS). Despesa empenhada por fonte de recurso.

3. Para onde vai

50,5%
27,3%
11%
Força de trabalho (50,5%)Hospitais e laboratórios (27,3%)Materiais e medicamentos (6,1%)Repasse à Fundação (5,1%)Demais despesas (11%)

Fonte: Portal da Transparência de Campos, 2.133 empenhos de 2025. Força de trabalho inclui salários, previdência e serviços de pessoas físicas.

Metade da despesa remunera a força de trabalho. Desse total, R$ 119,6 milhões foram pagos a profissionais contratados como prestadores de serviço, e o portal registra como favorecido o próprio órgão, sem identificar quem recebeu. No CNES, os vínculos autônomos na rede pública passaram de 1.146 em 2021 para 2.380 em 2024, e os de servidores e empregados públicos, de 5.619 para 5.164. A Constituição exige concurso público para cargos e empregos públicos, e a Lei de Responsabilidade Fiscal exige a divulgação do beneficiário de cada pagamento; a primeira exigência não pode ser verificada com os dados disponíveis, e a segunda não é atendida pelo portal no caso desses pagamentos.

A forma de registro também limita o controle. Mais da metade da despesa (54,1%), incluída a folha, é lançada como “Administração Geral”, o que impede saber, pelos relatórios oficiais, quanto foi para a atenção básica ou para os hospitais. E o repasse de R$ 63 milhões do Fundo à Fundação Municipal de Saúde é somado duas vezes no total oficial, que fica superestimado nessa proporção.

Nas compras, a Fundação Municipal de Saúde adquiriu R$ 12,0 milhões em insumos e medicamentos por dispensa emergencial em 2025 e mais R$ 5,5 milhões entre janeiro e outubro de 2026, inclusive com os mesmos fornecedores nos dois anos. A lei admite a contratação emergencial diante de situação imprevisível e veda a recontratação pelo mesmo fundamento; a recorrência para itens de uso contínuo é ponto a ser verificado pelos órgãos de controle.

4. O caminho das emendas parlamentares

Deputados e senadores enviaram R$ 67,96 milhões ao Fundo Municipal de Saúde em 2025, quase tudo para custeio, o que as regras do Ministério da Saúde permitem. Cruzando os dados federais com os empenhos do Município, foi possível reconstituir o destino da maior parte:

Repassados em bloco à Fundação Municipal de Saúde destino final não identificável
R$ 29,5 mi
Hospitais filantrópicos e conveniados
R$ 15,2 mi
Contratos de apoio (logística, ambulâncias, manutenção)
R$ 6,2 mi
Medicamentos da atenção básica
R$ 4,2 mi
Ainda não aplicados ou sem vínculo identificado
R$ 12,8 mi

Fonte: Portal da Transparência do Governo Federal (emendas por favorecido) e Portal da Transparência de Campos (empenhos de 2025 e 2026). Estimativa do estudo.

Depois de repassado à Fundação, o recurso passa a ser registrado sem vínculo com a emenda de origem, e os dados públicos não permitem saber em que foi aplicado. O Conselho Municipal de Saúde recomendou que as emendas sejam apresentadas previamente ao colegiado e vinculadas a procedimentos, exames, cirurgias e mutirões.

5. Os atendimentos

Os oito hospitais do Município registraram 40.353 internações pelo SUS em 2025, 70% delas de urgência, e a rede fez 9,09 milhões de procedimentos ambulatoriais, entre consultas, exames, hemodiálise e quimioterapia.

Plantadores de Cana
11.454
Ferreira Machado
7.658
Geral de Guarus
6.056
Escola Álvaro Alvim
4.366
Santa Casa
3.840
Beneficência Portuguesa
2.982
São José
2.238
Dr. Beda
1.759
Rede municipal   Hospitais conveniados

Fonte: DATASUS, SIH/SUS, internações por local de internação, 2025.

Entre 2019 e 2024, as internações cresceram 36,0%, com maior aumento na rede municipal (o Geral de Guarus passou de 2.278 para 7.202); em 2025, recuaram 6,3% em relação a 2024. No mesmo período de 2019 a 2025, a Beneficência Portuguesa reduziu suas internações em 36,5%.

90,7% das internações foram de moradores de Campos; pacientes de outros municípios responderam por 9,3%. O dado vale para internações; serviços como hemodiálise e oncologia podem atrair mais pacientes de fora, e o DATASUS não permite medir isso por unidade.

6. Os resultados

Meta de 2025MetaResultadoSituação
Mortalidade infantil (por mil nascidos vivos)12,515,7Não atingida
Casos de sífilis congênita2571Não atingida
Cobertura de saúde bucal30%11,8%Não atingida
Gestantes com 7 ou mais consultas de pré-natal70%67%Parcial
Vacinação do calendário nacional85%75%Parcial
Óbitos maternosaté 64Atingida

Fonte: Relatório Anual de Gestão 2025, metas da Programação Anual de Saúde. Classificação do estudo.

As metas são as fixadas pelo próprio Município. As não atingidas concentram-se na atenção primária e na saúde materno-infantil. O Relatório Anual calcula o percentual de alcance dividindo o resultado pela meta também nos indicadores de redução, o que faz a sífilis congênita aparecer com 284% de alcance, quando o resultado ficou acima do limite fixado.

Leia o estudo completo

O estudo “O Gasto Público com Saúde no Município de Campos dos Goytacazes” tem 43 páginas, com todos os quadros, a metodologia e os links para os dados originais.

Baixar o estudo em PDF

Fontes

Período analisado: exercício de 2025, com séries históricas desde 2013 e dados parciais de 2026. Valores nominais, sem correção monetária. Dados consultados em 1º e 2 de novembro de 2026.