Entre 2003 e 2025, cinco municípios fluminenses receberam mais de R$ 100 mil por habitante em royalties e outras receitas do petróleo, em valores de 2025; Nova Iguaçu, São João de Meriti, São Gonçalo e Belford Roxo, menos de R$ 1.400. Os que receberam mais têm hoje saneamento, escolas, saúde e renda melhores? Cruzamos as receitas do petróleo com indicadores oficiais dos 92 municípios do Rio de Janeiro – e situamos Campos dos Goytacazes entre eles.
1. Como comparamos
Para cada município, somamos os royalties pagos pela ANP de 2003 a 2014 e todas as receitas do petróleo declaradas ao Tesouro Nacional (SICONFI) de 2015 a 2025, em reais de 2025, e dividimos pela população do Censo 2022. Esse valor foi comparado com indicadores de 2022 a 2025: receita e tributos da prefeitura, PIB, salário, renda, pobreza, Bolsa Família, saneamento, alfabetização, IDEB, mortalidade infantil e letalidade violenta. A medida estatística é a correlação de Spearman, que vai de −1 a +1; perto de zero, não há associação. Também calculamos a correlação retirando o efeito da região, da renda e do crescimento da população.
Correlação não é causa. Os municípios com mais petróleo são, em geral, litorâneos, menores e de população em crescimento rápido; os controles reduzem, mas não eliminam, esses efeitos.
2. O dinheiro chega aos cofres, mas não ao bolso das famílias
A associação mais forte é com a receita corrente por habitante (+0,83): nos 12 municípios que mais receberam petróleo, a mediana foi de R$ 18.240 por habitante por ano em 2023–2025, ante R$ 8.058 nos demais. Nesses municípios, os tributos próprios pesam menos na receita (−0,37), e o PIB per capita e o salário médio formal são maiores. Já o rendimento das famílias medido pelo Censo 2022 (+0,05) e a proporção de moradores com até meio salário mínimo (+0,01) não acompanham o petróleo; a proporção de beneficiários do Bolsa Família é até um pouco maior (+0,22).
| Indicador | Correlação | −1 0 +1 | Com controles |
|---|---|---|---|
| Receita corrente da prefeitura por habitante | +0,83 | +0,81* | |
| Peso dos tributos próprios na receita | −0,37 | −0,41* | |
| PIB per capita | +0,37 | +0,26* | |
| Salário médio formal | +0,29 | +0,33* | |
| Rendimento das famílias | +0,05 | −0,04 | |
| Moradores com até 1/2 SM ou sem renda | +0,01 | +0,04 | |
| Beneficiários do Bolsa Família | +0,22 | +0,21* | |
| Esgoto pela rede | −0,54 | −0,44* | |
| Água da rede geral | −0,20 | −0,33* | |
| Alfabetização (15+) | −0,30 | −0,33* | |
| IDEB anos iniciais (rede municipal) | +0,14 | +0,02 | |
| Mortalidade infantil | −0,16 | −0,14 | |
| Letalidade violenta | +0,01 | −0,11 |
3. Saneamento: menos esgoto onde houve mais petróleo
Nos 12 maiores recebedores, a mediana de domicílios ligados à rede de esgoto em 2022 foi de 63,1%, ante 71,2% nos demais municípios. São João da Barra (26,6%), Saquarema (27,4%), Búzios (31,9%), Maricá (34,7%) e Paraty (17,7%) estão entre eles; Macaé (84,2%) e Quissamã (76,9%) são exceções. A associação negativa (−0,54) se mantém com os controles (−0,44). Os dados não mostram que o petróleo piorou o saneamento – mostram que, até 2022, não o tornou melhor que o dos municípios sem esses recursos.
4. Escola, saúde e segurança: sem diferença
O IDEB da rede municipal (+0,14 nos anos iniciais), a mortalidade infantil (−0,16) e a letalidade violenta (+0,01) não têm associação estatisticamente significativa com o petróleo recebido. A mediana do IDEB dos anos iniciais foi de 5,6 nos 12 maiores recebedores e de 5,5 nos demais; a da mortalidade infantil, de 12,3 por mil nascidos vivos nos dois grupos.
5. Campos entre os 92 municípios
Campos recebeu R$ 46.760 por habitante em petróleo no período, 13º maior valor do Estado. Mesmo assim, a receita corrente da prefeitura foi de R$ 6.514 por habitante em 2023–2025, abaixo da mediana estadual – os recursos se dividem por mais de 480 mil habitantes e caíram depois de 2014. Nos indicadores sociais, o Município fica perto da mediana ou abaixo dela, com a 85ª posição em mortalidade infantil e a 81ª na proporção de moradores com até meio salário mínimo.
| Indicador | Campos | Posição | Mediana do RJ |
|---|---|---|---|
| Receita corrente da prefeitura por habitante | 6.514 | 73ª de 91 | 8.705 |
| Peso dos tributos próprios na receita | 17,8 | 21ª de 91 | 9,8 |
| Salário médio formal | 2,2 | 18ª de 92 | 1,9 |
| Moradores com até 1/2 SM ou sem renda | 39,1 | 81ª de 92 | 30,4 |
| Esgoto pela rede | 64,8 | 61ª de 92 | 70,6 |
| IDEB anos iniciais (rede municipal) | 5,4 | 49ª de 92 | 5,5 |
| Mortalidade infantil | 18,4 | 85ª de 92 | 12,3 |
| Letalidade violenta | 25,2 | 55ª de 92 | 21,5 |
6. Perguntas que os dados ainda não respondem
- Em que os municípios que mais receberam petróleo aplicaram os recursos? A resposta exige analisar a despesa por função ao longo de duas décadas.
- Por que alguns grandes recebedores, como Macaé e Quissamã, alcançaram cobertura de esgoto acima da mediana e outros, como São João da Barra e Maricá, não?
- Quanto do crescimento populacional acelerado no litoral explica a menor cobertura de saneamento nesses municípios?
Como fizemos. Dados consultados em 5/11/2026: ANP (royalties por beneficiário, 2003–2014), Tesouro Nacional/SICONFI (receitas do petróleo, receita corrente e tributos, 2015–2025), IBGE (Censo 2022, PIB dos Municípios, CEMPRE, população e regiões), INEP (IDEB 2023), Ministério da Saúde/DATASUS (óbitos infantis e nascidos vivos, 2020–2024), ISP-RJ (letalidade violenta, 2023–2025), CGU (Bolsa Família, 2025) e Banco Central (Pix, 2025). Valores atualizados pelo IPCA médio anual. A participação especial de 2003 a 2014 não entrou na soma, por falta de tabela anual por município comparável; para Campos, ela elevaria o acumulado para cerca de R$ 75 mil por habitante. Dados de 2015 a 2025 de nove municípios têm lacunas no SICONFI.
Os gráficos interativos de todos os indicadores estão na aba “Petróleo x indicadores” do Painel de Indicadores de Campos dos Goytacazes. A trajetória de Campos em detalhe está no Raio X de Campos dos Goytacazes.
Fontes
ANP – Royalties por beneficiário: gov.br/anp – royalties
Tesouro Nacional – SICONFI, DCA: siconfi.tesouro.gov.br
IBGE – SIDRA: sidra.ibge.gov.br
INEP – IDEB: gov.br/inep – IDEB
DATASUS – TabNet: tabnet.datasus.gov.br
ISP-RJ – dados abertos: ispdados.rj.gov.br
CGU – Portal da Transparência: portaldatransparencia.gov.br
Banco Central – Estatísticas do Pix: dadosabertos.bcb.gov.br
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