quinta-feira, 5 de novembro de 2026

O petróleo fez diferença? Receitas do petróleo e indicadores nos 92 municípios do RJ (2003–2025)

Entre 2003 e 2025, cinco municípios fluminenses receberam mais de R$ 100 mil por habitante em royalties e outras receitas do petróleo, em valores de 2025; Nova Iguaçu, São João de Meriti, São Gonçalo e Belford Roxo, menos de R$ 1.400. Os que receberam mais têm hoje saneamento, escolas, saúde e renda melhores? Cruzamos as receitas do petróleo com indicadores oficiais dos 92 municípios do Rio de Janeiro – e situamos Campos dos Goytacazes entre eles.

R$ 46,8 mil
petróleo recebido por habitante em Campos de 2003 a 2025, em reais de 2025 – 13ª posição entre 92
+0,83
correlação entre petróleo e receita corrente por habitante: o dinheiro chega aos cofres
−0,54
correlação com o esgoto pela rede: onde houve mais petróleo, a cobertura é menor
Sem relação
estatisticamente significativa com IDEB, mortalidade infantil, renda das famílias e letalidade violenta

1. Como comparamos

Para cada município, somamos os royalties pagos pela ANP de 2003 a 2014 e todas as receitas do petróleo declaradas ao Tesouro Nacional (SICONFI) de 2015 a 2025, em reais de 2025, e dividimos pela população do Censo 2022. Esse valor foi comparado com indicadores de 2022 a 2025: receita e tributos da prefeitura, PIB, salário, renda, pobreza, Bolsa Família, saneamento, alfabetização, IDEB, mortalidade infantil e letalidade violenta. A medida estatística é a correlação de Spearman, que vai de −1 a +1; perto de zero, não há associação. Também calculamos a correlação retirando o efeito da região, da renda e do crescimento da população.

Correlação não é causa. Os municípios com mais petróleo são, em geral, litorâneos, menores e de população em crescimento rápido; os controles reduzem, mas não eliminam, esses efeitos.

2. O dinheiro chega aos cofres, mas não ao bolso das famílias

A associação mais forte é com a receita corrente por habitante (+0,83): nos 12 municípios que mais receberam petróleo, a mediana foi de R$ 18.240 por habitante por ano em 2023–2025, ante R$ 8.058 nos demais. Nesses municípios, os tributos próprios pesam menos na receita (−0,37), e o PIB per capita e o salário médio formal são maiores. Já o rendimento das famílias medido pelo Censo 2022 (+0,05) e a proporção de moradores com até meio salário mínimo (+0,01) não acompanham o petróleo; a proporção de beneficiários do Bolsa Família é até um pouco maior (+0,22).

Petróleo acumulado por habitante e indicadores municipais
Correlação de Spearman entre os 92 municípios do RJ; * significativa com controles (região, renda e crescimento populacional)
IndicadorCorrelação−1     0     +1Com controles
Receita corrente da prefeitura por habitante+0,83
+0,81*
Peso dos tributos próprios na receita−0,37
−0,41*
PIB per capita+0,37
+0,26*
Salário médio formal+0,29
+0,33*
Rendimento das famílias+0,05
−0,04
Moradores com até 1/2 SM ou sem renda+0,01
+0,04
Beneficiários do Bolsa Família+0,22
+0,21*
Esgoto pela rede−0,54
−0,44*
Água da rede geral−0,20
−0,33*
Alfabetização (15+)−0,30
−0,33*
IDEB anos iniciais (rede municipal)+0,14
+0,02
Mortalidade infantil−0,16
−0,14
Letalidade violenta+0,01
−0,11
Elaboração própria com dados de ANP, SICONFI, IBGE, INEP, DATASUS, ISP-RJ, CGU e Banco Central.

3. Saneamento: menos esgoto onde houve mais petróleo

Nos 12 maiores recebedores, a mediana de domicílios ligados à rede de esgoto em 2022 foi de 63,1%, ante 71,2% nos demais municípios. São João da Barra (26,6%), Saquarema (27,4%), Búzios (31,9%), Maricá (34,7%) e Paraty (17,7%) estão entre eles; Macaé (84,2%) e Quissamã (76,9%) são exceções. A associação negativa (−0,54) se mantém com os controles (−0,44). Os dados não mostram que o petróleo piorou o saneamento – mostram que, até 2022, não o tornou melhor que o dos municípios sem esses recursos.

Petróleo acumulado por habitante e esgoto pela rede (2022)
% dos domicílios – cada ponto é um município do RJ
0255075100R$ 1 milR$ 3 milR$ 10 milR$ 30 milR$ 100 milPetróleo acumulado 2003–2025 por habitante (escala log.)Angra dos Reis: 70,5Aperibé: 85,0Araruama: 32,8Areal: 42,0Armação dos Búzios: 31,9Arraial do Cabo: 69,4Barra do Piraí: 78,3Barra Mansa: 82,1Belford Roxo: 88,1Bom Jardim: 44,4Bom Jesus do Itabapoana: 81,3Cabo Frio: 61,5Cachoeiras de Macacu: 66,4Cambuci: 55,2Carapebus: 59,4Comendador Levy Gasparian: 75,0Cantagalo: 76,1Cardoso Moreira: 50,1Carmo: 85,8Casimiro de Abreu: 66,8Conceição de Macabu: 61,8Cordeiro: 86,1Duas Barras: 34,5Duque de Caxias: 89,3Engenheiro Paulo de Frontin: 45,2Guapimirim: 56,6Iguaba Grande: 52,4Itaboraí: 66,0Itaguaí: 83,0Italva: 82,0Itaocara: 73,7Itaperuna: 90,8Itatiaia: 69,6Japeri: 71,7Laje do Muriaé: 65,2Macuco: 86,2Magé: 68,6Mangaratiba: 36,4Mendes: 64,9Mesquita: 97,1Miguel Pereira: 69,9Miracema: 91,4Natividade: 69,8Nilópolis: 98,8Nova Friburgo: 74,5Nova Iguaçu: 88,7Paracambi: 73,7Paraíba do Sul: 81,2Paraty: 17,7Paty do Alferes: 49,2Petrópolis: 75,9Pinheiral: 91,6Piraí: 73,5Porciúncula: 75,1Porto Real: 94,5Quatis: 86,1Queimados: 88,9Resende: 93,8Rio Bonito: 76,8Rio Claro: 55,7Rio das Flores: 73,8Rio das Ostras: 62,5Santa Maria Madalena: 49,8Santo Antônio de Pádua: 84,7São Francisco de Itabapoana: 3,2São Fidélis: 70,7São Gonçalo: 83,7São João de Meriti: 97,6São José de Ubá: 59,7São José do Vale do Rio Preto: 54,4São Pedro da Aldeia: 67,9São Sebastião do Alto: 46,9Sapucaia: 70,2Saquarema: 27,4Seropédica: 73,8Silva Jardim: 57,2Sumidouro: 25,5Tanguá: 70,8Teresópolis: 54,9Trajano de Moraes: 33,8Três Rios: 78,0Valença: 76,2Varre-Sai: 58,3Vassouras: 70,1Volta Redonda: 96,0Campos dos Goytacazes: 64,8CamposMacaé: 84,2MacaéMaricá: 34,7MaricáNiterói: 92,5NiteróiQuissamã: 76,9QuissamãRio de Janeiro: 94,9Rio de JaneiroSão João da Barra: 26,6S. J. da Barra
Fontes: ANP; Tesouro/SICONFI; IBGE, Censo 2022.

4. Escola, saúde e segurança: sem diferença

O IDEB da rede municipal (+0,14 nos anos iniciais), a mortalidade infantil (−0,16) e a letalidade violenta (+0,01) não têm associação estatisticamente significativa com o petróleo recebido. A mediana do IDEB dos anos iniciais foi de 5,6 nos 12 maiores recebedores e de 5,5 nos demais; a da mortalidade infantil, de 12,3 por mil nascidos vivos nos dois grupos.

5. Campos entre os 92 municípios

Campos recebeu R$ 46.760 por habitante em petróleo no período, 13º maior valor do Estado. Mesmo assim, a receita corrente da prefeitura foi de R$ 6.514 por habitante em 2023–2025, abaixo da mediana estadual – os recursos se dividem por mais de 480 mil habitantes e caíram depois de 2014. Nos indicadores sociais, o Município fica perto da mediana ou abaixo dela, com a 85ª posição em mortalidade infantil e a 81ª na proporção de moradores com até meio salário mínimo.

Campos dos Goytacazes entre os 92 municípios do RJ
Posição: 1ª = melhor resultado (menor valor em pobreza, mortalidade e letalidade; maior peso de tributos próprios)
IndicadorCamposPosiçãoMediana do RJ
Receita corrente da prefeitura por habitante6.51473ª de 918.705
Peso dos tributos próprios na receita17,821ª de 919,8
Salário médio formal2,218ª de 921,9
Moradores com até 1/2 SM ou sem renda39,181ª de 9230,4
Esgoto pela rede64,861ª de 9270,6
IDEB anos iniciais (rede municipal)5,449ª de 925,5
Mortalidade infantil18,485ª de 9212,3
Letalidade violenta25,255ª de 9221,5
Períodos: receita e tributos 2023–2025; salário 2024; pobreza e esgoto 2022; IDEB 2023; mortalidade 2020–2024; letalidade 2023–2025.

6. Perguntas que os dados ainda não respondem

  • Em que os municípios que mais receberam petróleo aplicaram os recursos? A resposta exige analisar a despesa por função ao longo de duas décadas.
  • Por que alguns grandes recebedores, como Macaé e Quissamã, alcançaram cobertura de esgoto acima da mediana e outros, como São João da Barra e Maricá, não?
  • Quanto do crescimento populacional acelerado no litoral explica a menor cobertura de saneamento nesses municípios?

Como fizemos. Dados consultados em 5/11/2026: ANP (royalties por beneficiário, 2003–2014), Tesouro Nacional/SICONFI (receitas do petróleo, receita corrente e tributos, 2015–2025), IBGE (Censo 2022, PIB dos Municípios, CEMPRE, população e regiões), INEP (IDEB 2023), Ministério da Saúde/DATASUS (óbitos infantis e nascidos vivos, 2020–2024), ISP-RJ (letalidade violenta, 2023–2025), CGU (Bolsa Família, 2025) e Banco Central (Pix, 2025). Valores atualizados pelo IPCA médio anual. A participação especial de 2003 a 2014 não entrou na soma, por falta de tabela anual por município comparável; para Campos, ela elevaria o acumulado para cerca de R$ 75 mil por habitante. Dados de 2015 a 2025 de nove municípios têm lacunas no SICONFI.

Os gráficos interativos de todos os indicadores estão na aba “Petróleo x indicadores” do Painel de Indicadores de Campos dos Goytacazes. A trajetória de Campos em detalhe está no Raio X de Campos dos Goytacazes.

Fontes

ANP – Royalties por beneficiário: gov.br/anp – royalties
Tesouro Nacional – SICONFI, DCA: siconfi.tesouro.gov.br
IBGE – SIDRA: sidra.ibge.gov.br
INEP – IDEB: gov.br/inep – IDEB
DATASUS – TabNet: tabnet.datasus.gov.br
ISP-RJ – dados abertos: ispdados.rj.gov.br
CGU – Portal da Transparência: portaldatransparencia.gov.br
Banco Central – Estatísticas do Pix: dadosabertos.bcb.gov.br

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