Quanto Campos dos Goytacazes produz, de onde vem o dinheiro da Prefeitura, onde estão os empregos formais, o que se planta e se cria no município, como vivem seus moradores e como evoluíram os indicadores de segurança? Reunimos séries oficiais do IBGE, da ANP, do Tesouro Nacional, do Ministério da Saúde, do INEP, do ISP-RJ e de outras bases públicas, com dados de 1970 a 2025, para mostrar o que os números registram – e o que eles ainda não explicam.
| Indicador | Período | Último dado |
|---|---|---|
| PIB municipal (IBGE) | 2002–2023 | 2023* |
| PIB por setor (IBGE) | 2002–2021 | 2021** |
| População – Censos (IBGE) | 1970–2022 | 2022 |
| Royalties (ANP) | 2003–2025 | 2025 |
| Participação especial (ANP e SICONFI) | 2003–2025 | 2025 |
| Receitas da Prefeitura (SICONFI) | 2014–2025 | 2025*** |
| Emprego e salários formais (CEMPRE/IBGE) | 2006–2024 | 2024**** |
| Lavouras, rebanhos e leite (PAM/PPM, IBGE) | 1974–2025 | 2025 |
| Censo Agropecuário (IBGE) | 2017 | 2017 |
| Renda, saneamento e alfabetização (Censo 2022) | 2022 | 2022 |
| Nascimentos e mortalidade infantil (DATASUS) | 1996–2024 | 2024 |
| IDEB (INEP) | 2005–2023 | 2023 |
| IDHM (PNUD/IPEA/FJP) | 1991, 2000, 2010 | 2010 |
| Segurança pública (ISP-RJ) | 2014–2025 | 2025 |
| Comércio exterior (ComexStat) | 1997–2025 | 2025 |
| Frota de veículos (SENATRAN) | 2006–2025 | 2025 |
1. Um PIB que acompanha o petróleo (2002–2023)
Em valores correntes, o PIB de Campos passou de R$ 12,5 bilhões (2002) para R$ 59,5 bilhões (2012), caiu para R$ 17,3 bilhões (2016) e chegou a R$ 43,0 bilhões em 2023, último ano divulgado pelo IBGE. Atualizados pela inflação (IPCA) para reais de 2025, os valores mostram um ciclo completo: o PIB de 2023 (R$ 47,1 bilhões) ficou 2,3% abaixo do de 2002 e 62,1% abaixo do pico de 2012. No mesmo critério, o PIB do Estado do Rio cresceu 81,1% e o do Brasil, 109,2% entre 2002 e 2023.
A explicação está na composição: a indústria, que inclui a extração de petróleo nos campos marítimos atribuídos ao Município pelo IBGE, respondeu por 63,9% do valor adicionado em 2002, 74,9% em 2006, 31,5% em 2016 e 57,0% em 2021. Por isso o PIB sobe e desce com o preço e o volume do petróleo – e parte dessa riqueza não circula na economia local. A participação de Campos no PIB fluminense foi de 11,87% em 2008 e de 3,66% em 2023.
2. O valor está no petróleo; o emprego, no comércio e nos serviços (2006–2024)
O Cadastro Central de Empresas do IBGE mostra outra economia. Em 2024, último ano disponível, as unidades de indústrias extrativas instaladas no Município ocupavam 228 pessoas, 0,2% do total. O comércio reunia um em cada quatro ocupados, seguido de saúde, administração pública, serviços administrativos e educação.
O número de assalariados formais foi de 79.150 (2006), 99.566 (2014) e 82.052 (2021). Na nova série do IBGE, iniciada em 2022 e não diretamente comparável com a anterior, passou de 86.105 (2022) para 93.379 (2024). O salário médio, atualizado para reais de 2025, foi de R$ 3.422 em 2014 e de R$ 3.205 em 2024; medido em salários mínimos, recuou de 2,6 para 2,2 no mesmo período. Em Macaé, o salário médio de 2024 foi de R$ 8.338 (5,6 salários mínimos).
3. Royalties e participação especial: de R$ 3 bilhões a R$ 0,7 bilhão (2003–2025)
Somando royalties e participação especial, o Município recebeu R$ 18,3 bilhões entre 2003 e 2025 em valores correntes – R$ 36,4 bilhões em reais de 2025. O maior valor anual, já descontada a inflação, foi o de 2008 (R$ 3,05 bilhões); o menor, o de 2020 (R$ 0,39 bilhão). Em 2025, foram R$ 718,0 milhões.
A mudança mais visível está na participação especial, cobrada sobre campos de grande produção: era 52,9% das receitas do petróleo de Campos em 2012 e foi 6,5% em 2025 (R$ 46,4 milhões). Os royalties, em valores correntes, foram de R$ 631,9 milhões (2012) e R$ 671,7 milhões (2025); descontada a inflação, a queda foi de 49,0%. Por habitante, o recebimento caiu de R$ 2.843 (2012) para R$ 1.383 (2025), em valores correntes.
4. A Prefeitura depende menos do petróleo – com orçamento menor (2014–2025)
Os balanços enviados pelo Município ao Tesouro Nacional (SICONFI) mostram que o petróleo respondia por 50,8% da receita corrente em 2014 e por 24,8% em 2025. A queda da dependência não veio de aumento da receita total: em reais de 2025, a receita corrente passou de R$ 4,74 bilhões (2014) para R$ 3,10 bilhões (2025), redução de 34,7%.
A arrecadação própria (impostos, taxas e contribuições) subiu de R$ 451,4 milhões para R$ 558,6 milhões entre 2014 e 2025, em reais de 2025 (+23,7%). O IPTU foi o principal responsável: passou de R$ 57,9 milhões para R$ 172,6 milhões no mesmo período e critério. O ISS, ao contrário, foi de R$ 202,9 milhões para R$ 179,8 milhões (−11,4%), e a cota-parte do ICMS repassada pelo Estado caiu de R$ 605,3 milhões para R$ 334,2 milhões (−44,8%).
Um registro chama atenção: entre 2014 e 2016, o Município lançou no SICONFI R$ 1,01 bilhão (valores correntes) como alienação de bens móveis – R$ 250,0 milhões, R$ 200,9 milhões e R$ 562,2 milhões. Nos demais anos da série, o item não passou de R$ 2,1 milhões. Por não ser receita recorrente, ficou fora das comparações acima.
5. Agropecuária: a cana ainda domina, com abacaxi e leite em seguida (1974–2025)
Somando lavouras, leite, ovos, mel e aquicultura, a produção agropecuária registrada pelo IBGE valeu R$ 332,7 milhões em 2025. A cana respondeu por 69,5% desse total, o leite por 14,9% e o abacaxi por 9,5%. A produção de cana chegou a 7,26 milhões de toneladas em 1982 e foi de 1,78 milhão em 2025; a área das lavouras temporárias passou de 138,3 mil hectares (1988) para 39,4 mil (2025).
O abacaxi passou de 3,6 mil toneladas (2002) para 18,97 mil toneladas (2025), enquanto a mandioca foi de 17,6 mil para 3,3 mil toneladas. Arroz, milho e feijão, relevantes nos anos 1970 e 1980, quase desapareceram da série; a soja aparece em 2025, com 2,7 mil toneladas. Na pecuária, o rebanho bovino passou de 152.950 cabeças (1974) para 280.200 (2025), e as galinhas e frangos, de 399.950 para 29.650. A produção de leite foi de 18,4 milhões de litros em 2025, com menos vacas ordenhadas (19.240, ante 32.334 em 1974) e mais litros por vaca (956 por ano, ante 440).
O Censo Agropecuário de 2017, o mais recente, contou 7.789 estabelecimentos. Os de agricultura familiar eram 63,8% do total e ocupavam 56,1% das pessoas, mas detinham 16,9% da área e 29,4% do valor da produção. As pastagens ocupavam 71,9% da área dos estabelecimentos.
6. Indicadores sociais: renda abaixo da média estadual, saneamento incompleto (1991–2024)
No Censo 2022, o rendimento domiciliar médio por pessoa foi de R$ 1.385,75 em Campos – abaixo do Estado (R$ 1.846,50), do Brasil (R$ 1.638,06) e de Macaé (R$ 1.876,38). Metade dos moradores vivia com até R$ 824,80 por pessoa. Em 39,1% da população, o rendimento por pessoa era de até meio salário mínimo ou nulo (30,6% no Estado).
| Indicador | Campos | Estado do RJ | Brasil |
|---|---|---|---|
| Rendimento per capita médio (R$) | 1.385,75 | 1.846,50 | 1.638,06 |
| Rendimento per capita mediano (R$) | 824,80 | 1.006,00 | 1.000,00 |
| Até 1/2 SM ou sem rendimento (% moradores) | 39,1 | 30,6 | 31,8 |
| Alfabetização, 15 anos ou mais (%) | 95,1 | 96,7 | 93,0 |
| Água pela rede geral (% domicílios) | 81,0 | 84,7 | 83,9 |
| Esgoto pela rede (% domicílios) | 64,8 | 84,4 | 64,7 |
A rede de esgoto (ou pluvial, ou fossa ligada à rede) atendia 64,8% dos domicílios em 2022, ante 84,4% no Estado; 19,4% usavam fossa rudimentar ou buraco. Na educação, o IDEB dos anos iniciais da rede municipal passou de 2,9 (2005) para 5,4 (2023), e o dos anos finais, de 2,7 para 4,2. Em 2021, último ano com meta, a rede ficou abaixo dela nas duas etapas (4,7 ante 5,2 e 4,0 ante 4,7).
A mortalidade infantil caiu de 34,7 óbitos por mil nascidos vivos (média de 1996–2000) para 15,7 (2015–2019) e foi de 18,4 em 2020–2024 – acima do Estado (13,0) e de Macaé (11,4) no mesmo período. O número de nascimentos passou de 8.839 (1996) para 5.870 (2024). O IDHM, medido nos Censos, foi de 0,505 (1991), 0,618 (2000) e 0,716 (2010).
7. Segurança: menos mortes violentas e roubos; mais estelionatos (2014–2025)
Segundo o ISP-RJ, a letalidade violenta em Campos caiu de 47,2 vítimas por 100 mil habitantes (2014) para 21,2 (2025), próxima da taxa do Estado (22,6). Os roubos registrados passaram de 1.859 para 660 e os furtos, de 3.783 para 2.802. Os estelionatos foram na direção oposta: de 521 registros (2014) para 3.277 (2025), com salto a partir de 2021.
8. Comércio exterior e frota (1997–2025)
Empresas sediadas em Campos exportaram US$ 75,8 milhões em 2025, ante US$ 265,5 milhões em 2014; petróleo bruto foi 78,6% do total de 2025. O dado segue o domicílio fiscal da empresa: as sediadas em São João da Barra, onde fica o Porto do Açu, exportaram US$ 3,32 bilhões. A frota de veículos passou de 99.483 (2006) para 266.253 (2025), e as motos e motonetas, de 16.666 para 67.676.
9. Perguntas que os dados ainda não respondem
- Quanto da recuperação do PIB entre 2016 e 2022 se deve ao preço do petróleo e quanto ao volume produzido? As bases municipais não separam os dois efeitos.
- Os serviços privados encolheram de R$ 29,6 bilhões (2014) para R$ 13,6 bilhões (2021), em reais de 2025. Quanto disso está ligado à cadeia do petróleo, quanto ao gasto público e quanto à renda local?
- O IPTU, em reais de 2025, quase triplicou entre 2014 e 2025. O aumento veio de atualização da planta de valores, de ampliação do cadastro ou de melhoria da cobrança?
- Qual a natureza das operações registradas como alienação de bens móveis em 2014–2016 e qual o efeito delas sobre as receitas dos anos seguintes?
- Com a participação especial reduzida a 6,5% das receitas do petróleo, quais campos sustentam os royalties atuais e por quanto tempo?
- Por que a mortalidade infantil de 2020–2024 (18,4 por mil) ficou acima da de 2015–2019 (15,7) e da do Estado (13,0)?
- Qual o cronograma de expansão da rede de esgoto, que atendia 64,8% dos domicílios em 2022, e qual a execução até agora?
- O aumento dos estelionatos desde 2021 reflete mais fraudes, sobretudo digitais, ou mudança na forma de registro?
Como fizemos. Todos os números vêm de bases oficiais consultadas em 5/11/2026: IBGE (PIB dos Municípios, Censos Demográficos, Censo Agropecuário 2017, CEMPRE, Produção Agrícola e Pecuária Municipal), ANP (royalties e participação especial), Tesouro Nacional/SICONFI (receitas municipais), Ministério da Saúde/DATASUS (nascimentos e óbitos infantis), INEP (IDEB), ISP-RJ (segurança pública), MDIC/ComexStat (comércio exterior) e SENATRAN (frota). Cada série tem seu próprio período, indicado no quadro do início. Valores "em reais de 2025" foram atualizados pelo IPCA médio anual, o que mede poder de compra, e não volume produzido. Os dados do Bolsa Família e do Cadastro Único não entraram porque o serviço de dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social estava fora do ar na data da consulta.
As séries completas estão no Painel de Indicadores de Campos dos Goytacazes, com gráficos interativos e download dos dados.
Fontes
IBGE – SIDRA (PIB dos Municípios, Censos, Censo Agropecuário, CEMPRE, PAM, PPM, IPCA): sidra.ibge.gov.br
IBGE Cidades (frota e IDHM): cidades.ibge.gov.br
ANP – Royalties por beneficiário: gov.br/anp – royalties
ANP – Participação especial (anos anteriores): gov.br/anp – participação especial
Tesouro Nacional – SICONFI, DCA Anexo I-C (3301009): siconfi.tesouro.gov.br
DATASUS – TabNet (SIM e SINASC): tabnet.datasus.gov.br
INEP – IDEB: gov.br/inep – IDEB
ISP-RJ – dados abertos: ispdados.rj.gov.br
MDIC – ComexStat: comexstat.mdic.gov.br
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